Que lugar é este?

                                                                                              Dinorah Poletto Porto

 

Temos uma Pousada em Arraial da Ajuda, em Porto Seguro, na Bahia. A primeira vez que fomos para lá em 1988 ficamos tão fascinados pelo local que tivemos que arrumar um bom motivo para podermos voltar várias vezes por ano. Na época era um simpático vilarejo, com as ruas todas de terra, muitas delas de areia, onde sentava-se no chão, nas esquinas, em volta de alguém tocando violão e o cheiro da maconha estava em todo o canto sem que ninguém se incomodasse com ele. Era   frequentada, praticamente só por estudantes e hippies. Muitas vezes nos parecia estar numa “Torre de Babel Do Bem”, onde, apesar das mais variadas línguas todos se entendiam perfeitamente.

Hoje em dia´, Arraial é frequentada por gente de todos os níveis e idades: solteiros viajando sozinhos ou em grupos e casais de namorados, em lua de mel ou com filhos pequenos e  adolescentes. Mas mesmo tendo mudado para um perfil mais conservador ainda continua pitoresca com características inusitadas.

Arraial da Ajuda é chamada “A Esquina do Mundo” e para fazer jus ao epíteto tem uma rua denominada, nada mais nada menos do que, Broduei (escrito deste jeito mesmo). Ali tem um beco, que para combinar com o nome da rua, se chama Quinta Avenida.

Na época, que lá aportamos, a Broduei tinha um centro telefônico,único local em Arraial, onde se podia fazer ou receber ligações telefônicas, sempre  intermediadas por uma telefonista. Lá o telefone ainda não havia chegado às residências. Hoje em dia ela é uma rua comum, com calçamento e está cheia de lojinhas, cujos donos, na maioria, são nativos. Mas na Broduei  ainda encontramos algumas coisas esdrúxulas que lembram a era dos dinossauros dos anos 80, como, por exemplo, um “Locutório Telefônico” com a seguinte placa pendurada na porta:

Here very cheap phone calls to Europe and rest of the world”  

Este atual “centro telefônico” está sempre cheio de estrangeiros, principalmente argentinos. Bem em frente ao tal “locutório” tem um bar onde se pode tomar cerveja ou pinga, comer um lanche, carregar o celular e também comprar ou vender dólares sem nenhuma burocracia.

Tirando o pé da Broduei, se cai na Praça São Pedro onde continuamos a encontrar as coisas mais inesperadas.

No meio da Praça há um cemitério desativado, porém, onde ainda jazem os mortos! Quase ninguém se dá conta que ali se encontra uma morada eterna, apesar do muro ser baixo e deixar à mostra as cruzes dos túmulos totalmente abandonados. A maioria das pessoas que por ali passa está mais interessada nos coloridos drinks  vendidos pelas dezenas de quiosques que se instalaram encostados no muro do campo-santo.

Um dos drinks mais famosos, oferecidos nos quiosques é o “Capeta” onde além de levar uma fruta, leite condensado e uma bebida alcoólica  tem obrigatoriamente guaraná em pó, o que ajuda o pessoal a ficar aceso até amanhecer o dia. A receita original era muito melhor: mel, guaraná em pó, limão e uma bebida alcoólica. Ela foi criada pelo Edson, dono de um dos únicos bares locais, com música ao vivo, no final dos anos 80.  Contava ele que um dia, para combater uma forte gripe, misturou limão com mel, mas como precisava ficar acordado no bar acrescentou guaraná em pó. O efeito foi tão bom que resolveu, mais tarde, colocar uma bebida alcoólica e transformar a beberagem em um drink para ser vendido no seu Bar. Estava criado o famoso Capeta.    

A Travessa São Pedro que é o nome da ruazinha onde se instalaram os quiosques também têm loja de conveniência, restaurante, farmácia, algumas lojinhas e um Bar com um som muito alto, que anima turistas, principalmente os estrangeiros, a dançar na rua um forró, com as garotas da terra. Atualmente recebeu, sabe-se lá porque, o apelido de “Faixa de Gaza.

Numa das sete esquinas da Praça é colocada, sobre a calçada, uma mesa enorme cheia de bolos deliciosos, que são vendidos até o dia clarear.

Em continuação à “Faixa de Gaza” encontramos:  “A rua mais charmosa do Brasil” que é o que diz a placa pendurada no início da Rua do Mucugê. Nela ficam deliciosos cafés e restaurantes dos mais variados, desde comida por quilo até sofisticados bistrôs com especialidades que nada ficam devendo a um chef gourmet. Na maioria dos cafés e restaurantes ouve-se música ao vivo, o que além de tornar a rua aprazível, oferece oportunidade para os músicos, que para ali migraram, encontrar um meio de ganhar a vida. Dá ainda uma ajuda também aos artistas forasteiros que vão em busca de um trabalho que os sustentem nas férias ou só querem mesmo se divertir.

A variedade encontrada nos restaurantes repete-se nas muitas e diversificadas lojas. Lá temos tanto lojas artesanais com produtos fabricados pelos próprios moradores, quanto as mais  sofisticadas e até mesmo marcas famosas.

A maioria destes estabelecimentos só abre após às 18 horas e, quando estou por lá, adoro dar uma volta descobrindo coisas que me agradam e depois me sentar em um café, para ouvir um gostoso sax ou um afinado violão, onde certamente vai aparecer um amigo para um bom papo.

Numa destas minhas andanças me deparei com uma loja, na qual nunca  havia  entrado, apesar dela estar ali há vários anos.  É um local simples com roupas dependuradas em varais. Ao olhar mais de perto descobri que as roupas faziam muito o meu estilo e ao tocá-las percebi que o tecido era muito macio, maravilhoso mesmo ! Um algodão de primeira qualidade.

Separei algumas peças para experimentar e olhando as etiquetas vi que em todas elas se lia: “made in Italy”. Só aí reparei na dona da loja, sentada atrás de um pequeno balcão, me deixando, sabiamente, à vontade para ver as roupas. Ela não tinha, absolutamente, cara de  carcamana, “mas deveria ser”, pensei eu, como tantos outros estrangeiros que imigraram para este local, “uma italiana que importava roupas de sua terra natal para vender em plagas baianas”. Quando falei com ela me respondeu em um autêntico “portunhol”.

Inicialmente fiquei meio confusa com seu sotaque, mas como meus avós eram carcamanos, sabia muito bem que italiana ela não era. Quando perguntei qual era sua nacionalidade  me respondeu prontamente: Nasci na Argentina, mas me considero brasileira, só estou esperando sair o papel oficial que ateste que sou brasileira.

Comprei várias peças, as que estavam em oferta paguei  “in cash”, como é costume por lá, e as outras com cartão de crédito. Saí da loja pensando: só aqui mesmo para se achar uma loja conduzida por uma simpática argentina, que faz questão de ser considerada brasileira e que vende roupas tão diferenciadas, todas confeccionadas na Itália e ainda por cima com preços da China!

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